Resumo
O Dia do Soldado Desconhecido constitui uma das mais relevantes manifestações de memória coletiva relacionadas aos conflitos armados do século XX. A celebração surgiu como resposta à magnitude das perdas humanas durante a Primeira Guerra Mundial, quando milhões de corpos permaneceram sem identificação. O objetivo deste artigo é analisar historicamente a origem do Soldado Desconhecido, sua consolidação simbólica em diferentes nações e sua relevância na formação da identidade nacional e do imaginário cívico contemporâneo. A partir de uma abordagem histórica e sociológica, busca-se compreender como o monumento ao Soldado Desconhecido se tornou um ícone universal de luto, sacrifício e preservação da paz. O estudo ainda destaca a importância da homenagem no contexto brasileiro e a relação com a construção da memória militar no país.
Palavras-chave: Soldado Desconhecido; Memória Coletiva; História Militar; Primeira Guerra Mundial; Patrimônio Cívico.
1. Introdução
As guerras que marcaram o início do século XX provocaram transformações profundas nas sociedades ocidentais, não apenas no campo político e tecnológico, mas também no modo como os Estados passaram a lidar com a memória dos mortos. Entre os símbolos derivados desse período, destaca-se a figura do Soldado Desconhecido, criada para representar milhares de combatentes cujas identidades não puderam ser recuperadas (Winter, 1995).
A criação de túmulos dedicados a soldados anônimos tornou-se prática comum em diversos países logo após a Primeira Guerra Mundial. Esses monumentos passaram a desempenhar função dupla: honrar o indivíduo desconhecido e simbolizar toda a coletividade dos mortos, transformando o anonimato em elemento central de reflexão sobre sacrifício, patriotismo e perda (Mosse, 1990).
No Brasil, a homenagem ao Soldado Desconhecido integra o patrimônio da memória nacional, especialmente após a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial. Este artigo examina a origem e o significado dessa figura simbólica, situando-a no contexto internacional e nacional, e discutindo seu papel na consolidação da identidade cívica.
2. Origens Históricas do Soldado Desconhecido
O conceito do Soldado Desconhecido consolidou-se após a Primeira Guerra Mundial. A carnificina do conflito — com mais de 10 milhões de mortos e incontáveis desaparecidos — deixou milhares de famílias sem possibilidade de sepultar seus entes queridos (Keegan, 1998). A solução encontrada por diversos Estados europeus foi erguer monumentos que representassem simultaneamente todos e nenhum dos mortos.
A França foi pioneira ao inaugurar, em 1920, o Túmulo do Soldado Desconhecido sob o Arco do Triunfo. No mesmo ano, o Reino Unido inaugurou seu monumento simbólico na Abadia de Westminster (Cunningham, 2009). Nos Estados Unidos, o túmulo de Arlington foi consagrado em 1921. A adoção quase simultânea dessas homenagens refletiu a necessidade psicossocial de reconstrução nacional após o trauma da guerra.
Esses túmulos não simbolizavam apenas o luto, mas também a reafirmação do Estado como guardião da memória nacional — uma forma de transformar perdas individuais em narrativa coletiva (Winter, 2014).
3. Significado Simbólico e Sociocultural
O Soldado Desconhecido constitui um dos símbolos mais expressivos da memória militar moderna, representando simultaneamente o anonimato individual e a totalidade dos combatentes mortos em guerras. Sua força simbólica decorre da combinação entre elementos de identidade nacional, ritualização do luto, pedagogia cívica e construção de uma narrativa histórica compartilhada. Esse capítulo aprofunda os significados socioculturais atribuídos ao monumento e sua influência na formação da memória coletiva.
3.1. O anonimato como universalidade simbólica
O aspecto fundamental que caracteriza o Soldado Desconhecido é sua condição de anonimato. O corpo sepultado — cujo nome, origem e trajetória permanecem desconhecidos — torna-se um representativo universal de todos os mortos. Para Anderson (1983), essa universalidade possibilita que indivíduos de diferentes regiões, etnias, classes sociais e credos reconheçam naquele túmulo um possível ancestral, filho ou conterrâneo. Assim, o anonimato funciona como dispositivo de identificação nacional, pois unifica a diversidade de experiências individuais sob uma única figura simbólica.
O monumento, nesse sentido, não celebra apenas um indivíduo, mas a coletividade dos mortos. A ausência de identidade transforma o túmulo em um ponto focal para diferentes narrativas afetivas e patrióticas, reforçando o papel do Estado como guardião dessa memória.
3.2. Ritualização, memória coletiva e práticas de rememoração
A força simbólica do Soldado Desconhecido resulta também da ritualização que se desenvolveu ao seu redor. Cerimônias anuais, desfiles militares, deposições de coroas de flores e minutos de silêncio constituem práticas organizadas que reforçam a permanência da memória ao longo das gerações.
Segundo Halbwachs (1992), a memória coletiva depende de marcos simbólicos e rituais que estabilizam as lembranças e articulam o passado ao presente. O Soldado Desconhecido funciona como um “ponto de ancoragem” da memória nacional, permitindo que a sociedade reviva e ressignifique o trauma da guerra em diferentes períodos históricos.
Além disso, como demonstra Winter (2014), a ritualização da memória após a Primeira Guerra Mundial buscava reconstruir o tecido social fragmentado. Os túmulos dos Soldados Desconhecidos, integrados a rituais públicos, passaram a ser essenciais para canalizar o luto coletivo e promover a coesão nacional.
3.3. Pedagogia cívica e construção da identidade nacional
Os monumentos ao Soldado Desconhecido também desempenham papel educativo, funcionando como instrumentos de formação cívica. A presença do monumento em espaços públicos — praças, panteões, centros cívicos — contribui para a socialização dos valores militares: disciplina, coragem, dever, abnegação e patriotismo.
Mosse (1990) argumenta que esses monumentos construíram uma nova “religião civil” em torno da morte heroica, reforçando a noção de que o sacrifício individual constitui fundamento da sobrevivência e prosperidade da nação. Assim, o monumento atua como elemento legitimador da narrativa nacional e serve de referência para a construção de identidades políticas.
Nas escolas, quartéis e instituições de ensino militar, o Soldado Desconhecido é frequentemente utilizado como ferramenta pedagógica que remete aos ideais de pertencimento e responsabilidade cívica.
3.4. Luto público, consolo privado e a reconstrução emocional após a guerra
Durante a Primeira Guerra Mundial, milhares de famílias nunca receberam os corpos de seus parentes mortos. Em muitos casos, as sepulturas coletivas impossibilitaram ritos tradicionais de despedida. O monumento ao Soldado Desconhecido atuou, então, como um substituto emocional do túmulo individual ausente (Winter, 1995).
Esse aspecto conferiu ao monumento uma dimensão psicológica fundamental: ele se tornou um espaço de luto privado, mesmo que compartilhado publicamente. O túmulo anônimo permitiu que familiares projetassem nele a memória de seus entes perdidos, criando um vínculo afetivo que ultrapassa gerações.
3.5. A função pacifista e a crítica ao militarismo
Embora o Soldado Desconhecido esteja associado ao universo militar, ele também se tornou símbolo do custo humano dos conflitos. Para Hobsbawm (1990), tais monumentos funcionam como advertência contra os horrores da guerra e a banalização da violência estatal.
Diversas cerimônias contemporâneas enfatizam essa perspectiva, usando o monumento como plataforma de discursos pacifistas, homilias religiosas e reflexões sobre direitos humanos. Assim, o Soldado Desconhecido opera simultaneamente como:
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símbolo da coragem militar;
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lembrete do sacrifício extremo;
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alerta quanto aos riscos da guerra.
Essa ambiguidade confere profundidade ao símbolo e o torna relevante em debates contemporâneos sobre diplomacia, segurança e paz mundial.
3.6. O Soldado Desconhecido como patrimônio cultural
Ao longo do século XX, os túmulos e monumentos dedicados ao Soldado Desconhecido foram incorporados ao patrimônio histórico e cultural de diversos países. Além de sua importância simbólica, recebem proteção estatal e reconhecimento internacional.
O tombamento desses monumentos ressalta seu caráter permanente e seu papel na conservação da memória. Conforme destaca Winter (2014), esses espaços se transformam em “paisagens de memória”, elementos fixos que estruturam o imaginário nacional e articulam a relação entre passado e presente.
4. O Soldado Desconhecido no Brasil
No contexto brasileiro, o culto à memória militar consolidou-se especialmente no século XX, com a criação de monumentos, datas comemorativas e ritos institucionais (Carvalho, 2003). A homenagem ao Soldado Desconhecido foi incorporada ao Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília, que abriga o “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”.
Embora o Brasil não tenha enfrentado guerras de grande escala em território nacional no século XX, sua participação na Segunda Guerra Mundial — sobretudo com a FEB — reforçou a criação de símbolos relacionados ao sacrifício militar. Diversos monumentos regionais também recordam combatentes mortos sem identificação plena.
A celebração do Soldado Desconhecido no Brasil destaca:
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o respeito aos militares mortos em operações nacionais e internacionais;
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o vínculo entre memória militar e identidade nacional;
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o reconhecimento do papel histórico da FEB na consolidação da participação brasileira na política internacional.
5. Relevância Contemporânea da Celebração
A permanência do Soldado Desconhecido como símbolo nacional e internacional ultrapassa os limites cronológicos das grandes guerras e se projeta no cenário contemporâneo como referência para debates sobre memória, cidadania, segurança, direitos humanos e cultura da paz. O mundo atual, marcado por conflitos regionais, tensões geopolíticas e desafios à preservação da soberania, reafirma a necessidade de reflexão sobre o sacrifício humano associado às guerras e sobre o papel da memória coletiva na construção de sociedades democráticas. Este tópico analisa a relevância atual do Soldado Desconhecido sob diferentes perspectivas.
5.1. Patrimônio cultural, educação histórica e formação cidadã
A presença de monumentos ao Soldado Desconhecido em praças cívicas, panteões e espaços públicos reforça a função pedagógica da memória histórica. Esses monumentos funcionam como instrumentos de educação informal, permitindo que estudantes e cidadãos dialoguem com o passado e estabeleçam conexões com temas como guerra, sacrifício, liberdade e democracia.
Como destaca Carvalho (2003), a cidadania se constrói por meio da relação entre memória pública e participação social. O Soldado Desconhecido torna-se referência para práticas pedagógicas em escolas, museus e quartéis — incluindo visitas guiadas, cerimônias cívicas e atividades educativas que reforçam a compreensão de processos históricos.
Além disso, o monumento estimula o pensamento crítico. Ao observar sua simbologia, novas gerações podem questionar:
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quais são os custos humanos da guerra?
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por que sociedades democráticas preservam esses símbolos?
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como evitar que tragédias semelhantes ocorram novamente?
Assim, a relevância do Soldado Desconhecido na educação ultrapassa a celebração militar e atinge um nível humanista e reflexivo.
5.2. Identidade nacional, coesão social e valores cívicos
O Soldado Desconhecido também desempenha importante papel na consolidação da identidade nacional. Mesmo em Estados com forte diversidade étnica, cultural ou regional, o monumento cria uma referência comum de pertencimento. Para Anderson (1983), símbolos desse tipo ajudam a constituir “comunidades imaginadas”, isto é, vínculos que unem indivíduos que nunca se encontraram, mas que compartilham narrativas históricas.
A celebração reforça valores como:
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solidariedade nacional;
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reconhecimento de sacrifícios coletivos;
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respeito às instituições da defesa e da segurança;
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consciência da continuidade histórica entre gerações.
A identidade cívica fortalecida por esse símbolo contribui para a coesão social e para a preservação de tradições democráticas, reforçando vínculos entre Estado, memória e sociedade.
5.3. Ética, direitos humanos e reflexão sobre a paz
Embora a origem do Soldado Desconhecido esteja vinculada a contextos militares, sua presença contemporânea carrega forte dimensão ética e humanitária. Os monumentos convidam à reflexão sobre o valor da vida humana, o impacto psicológico da guerra e os limites do poder estatal no uso da força.
Hobsbawm (1990) observa que a lembrança contínua da violência extrema do século XX tornou-se base para movimentos pacifistas e para a formulação de instituições internacionais voltadas à prevenção de conflitos, como a ONU e suas convenções humanitárias.
Nesse contexto, o Soldado Desconhecido atua como:
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memorial de advertência contra atrocidades;
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símbolo de compromisso com direitos humanos;
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elemento de cultura de paz e diplomacia.
Cerimônias em torno do monumento frequentemente incluem discursos que relacionam história, ética e a necessidade de resolver disputas internacionais por meios diplomáticos.
5.4. Diplomacia, relações internacionais e construção da paz
Muitos Estados utilizam o monumento ao Soldado Desconhecido como espaço de diplomacia simbólica. Chefes de Estado e delegações estrangeiras realizam visitas formais, depositam flores e participam de cerimônias que celebram compromissos de paz e cooperação.
Essas práticas reforçam:
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alianças militares e estratégicas;
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relações diplomáticas baseadas no respeito mútuo;
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pactos internacionais de memória, como acordos pós-guerra;
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a preservação de valores comuns entre nações.
A visita ao túmulo do Soldado Desconhecido, especialmente em países como França, Estados Unidos e Reino Unido, tornou-se gesto diplomático obrigatório em encontros oficiais, evidenciando o valor simbólico global desses monumentos.
5.5. Psicologia social, luto histórico e mecanismos de resiliência
A figura do Soldado Desconhecido desempenha importante papel na psicologia social das nações que sofreram grandes perdas humanas em guerras. O monumento funciona como espaço de luto coletivo, permitindo que indivíduos e comunidades processem emocionalmente experiências traumáticas. Segundo Winter (2014), esses locais atuam como “dispositivos de resiliência”, favorecendo:
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reconstrução emocional após traumas coletivos;
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sentimento de continuidade histórica;
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fortalecimento da esperança e do senso de propósito nacional.
Além disso, em países que vivenciaram conflitos recentes, o Soldado Desconhecido também se torna símbolo de reconciliação entre gerações afetadas pelos traumas da guerra.
5.6. Relevância no contexto brasileiro contemporâneo
No Brasil, o Soldado Desconhecido apoia a preservação da memória nacional relacionada à participação do país em conflitos internacionais — especialmente à atuação da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial.
O monumento brasileiro, presente no Panteão da Pátria, reafirma:
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a importância histórica dos pracinhas;
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o reconhecimento das vidas perdidas em nome da liberdade;
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o compromisso do Brasil com missões de paz internacionais;
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a valorização das Forças Armadas como instituições permanentes do Estado.
Além disso, as celebrações anuais reforçam vínculos institucionais e fortalecem a cultura cívica, especialmente entre jovens militares e estudantes.
5.7. Permanência e futuro do símbolo na era digital
Na atualidade, marcada por redes sociais, mídias digitais e cultura da informação, o Soldado Desconhecido permanece relevante. Plataformas online de memória e museus virtuais ampliam o alcance do símbolo, permitindo que novas gerações explorem documentos, fotos, vídeos e relatos sobre guerras e sacrifícios.
A digitalização da memória — fenômeno destacado por Winter (2014) — permite:
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novos formatos de homenagens (memoriais virtuais, transmissões ao vivo de cerimônias);
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acesso democrático à história militar;
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fortalecimento de comunidades online dedicadas à preservação da memória histórica.
Assim, o Soldado Desconhecido mantém sua relevância ao se adaptar às transformações culturais e tecnológicas contemporâneas.
6. Conclusão
O Dia do Soldado Desconhecido constitui uma expressão simbólica fundamental da memória militar e do imaginário cívico mundial. Mais do que representar um indivíduo anônimo, o monumento homenageia toda a coletividade de combatentes que perderam suas vidas sem reconhecimento nominal. Sua importância ultrapassa o campo militar e alcança dimensões sociais, políticas e culturais, reafirmando o papel da memória na construção de identidades nacionais.
Ao analisar a origem, o significado e a disseminação desse símbolo, evidencia-se que a homenagem não é apenas um ato de reverência histórica, mas também um convite à reflexão sobre o custo humano dos conflitos e a necessidade permanente da paz. No Brasil, o Soldado Desconhecido integra a memória nacional e reforça valores de cidadania, união e respeito ao passado.
Referências
- Anderson, B. (1983). Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. London: Verso.
- Carvalho, J. M. de. (2003). Cidadania no Brasil: O longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
- Cunningham, M. (2009). The Unknown Soldier. Oxford: Oxford University Press.
- Halbwachs, M. (1992). On Collective Memory. Chicago: University of Chicago Press.
- Hobsbawm, E. (1990). Nations and Nationalism since 1780. Cambridge: Cambridge University Press.
- Keegan, J. (1998). The First World War. New York: Vintage.
- Mosse, G. L. (1990). Fallen Soldiers: Reshaping the Memory of the World Wars. New York: Oxford University Press.
- Winter, J. (1995). Sites of Memory, Sites of Mourning: The Great War in European Cultural History. Cambridge: Cambridge University Press.
- Winter, J. (2014). Remembering War. New Haven: Yale University Press.
