Resumo
A superação da fome mundial exige mais do que distribuição pontual de alimentos ou transferência emergencial de renda. Embora medidas assistenciais possam ser necessárias em crises agudas, elas não bastam para eliminar a insegurança alimentar de forma duradoura. Organismos internacionais vêm destacando que o avanço contra a fome depende do fortalecimento de sistemas alimentares, do apoio à agricultura de pequena escala, do acesso a serviços, infraestrutura, mercados, emprego e dietas nutritivas, além do enfrentamento dos fatores estruturais que elevam preços e reduzem renda. Em 2025, a ONU afirmou que o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2 continua fora de trajetória e que recolocar o mundo no caminho do “Fome Zero” requer ações urgentes para fortalecer sistemas alimentares, apoiar pequenos produtores, ampliar serviços e enfrentar os determinantes estruturais da volatilidade de preços. A FAO e o Banco Mundial também enfatizam que inflação de alimentos, desigualdade estrutural, baixa produtividade, fragilidade institucional e choques climáticos estão entre os principais fatores que perpetuam a fome. Este artigo defende que o combate sustentável à fome mundial deve se basear em políticas públicas estruturantes, voltadas à produção, produtividade, renda do trabalho, logística, inovação, acesso a mercados e governança alimentar. Conclui-se que o fim da fome depende menos de assistencialismo permanente e mais da capacidade do Estado de construir condições para que famílias e países produzam, comprem, transportem e consumam alimentos de forma estável, digna e sustentável.
Palavras-chave: fome mundial, políticas públicas, segurança alimentar, desenvolvimento produtivo, sistemas alimentares.
1 Introdução
A fome continua sendo um dos maiores desafios da humanidade, apesar do avanço tecnológico, da expansão da produtividade agrícola e do aumento global da capacidade de produção de alimentos. O problema contemporâneo da fome não decorre apenas da ausência física de comida, mas também de renda insuficiente, desigualdade, conflitos, choques climáticos, deficiências logísticas, inflação de alimentos e fragilidade das políticas públicas. A ONU afirma que o ODS 2, voltado a acabar com a fome e todas as formas de má nutrição até 2030, está atrasado, e que o progresso recente é insuficiente para cumprir essa meta.
Nesse contexto, é comum que o debate público associe o combate à fome quase exclusivamente a ações assistenciais, como doações, cestas básicas ou programas emergenciais de transferência. Essas medidas podem ser indispensáveis em situações de guerra, desastres, colapso econômico ou extrema vulnerabilidade. No entanto, quando convertidas em eixo permanente e quase exclusivo da política alimentar, elas não atacam as causas estruturais da fome. A própria ONU tem enfatizado que recolocar o mundo na trajetória do Fome Zero exige fortalecer sistemas alimentares, apoiar pequenos produtores, melhorar serviços, ampliar o acesso a dietas nutritivas e enfrentar os fatores estruturais da volatilidade de preços.
O Banco Mundial reforça essa leitura ao destacar que a insegurança alimentar é impulsionada por conflitos, choques econômicos, eventos climáticos extremos, pobreza e pressões sobre preços. A FAO, por sua vez, informa que a inflação de alimentos atinge de forma mais severa países com maior desigualdade e que desigualdades estruturais, inclusive de gênero, ampliam seus efeitos sobre segurança alimentar e nutrição. Isso mostra que a fome é, em grande medida, resultado de estruturas econômicas e institucionais deficientes, e não apenas de escassez física de alimentos.
Diante disso, este artigo propõe uma reflexão sobre como acabar com a fome mundial por meio de políticas públicas estruturantes, sem tomar o assistencialismo como solução central. A hipótese defendida é que o enfrentamento duradouro da fome depende da combinação entre produção eficiente, renda, logística, integração ao mercado, governança pública e resiliência dos sistemas alimentares.
2 Desenvolvimento
2.1 A fome é um problema estrutural, não apenas emergencial
A primeira premissa para enfrentar a fome de modo eficaz é reconhecer sua natureza estrutural. Pessoas passam fome não somente quando falta alimento no território, mas também quando não possuem renda para comprá-lo, quando o preço sobe acima de sua capacidade de consumo, quando cadeias logísticas falham, quando o Estado não garante infraestrutura e quando pequenos produtores são excluídos dos mercados. A FAO registra que a edição de 2025 do State of Food Security and Nutrition in the World analisa justamente os efeitos da inflação de alimentos sobre diferentes grupos sociais e mostra como fatores estruturais amplificam insegurança alimentar e má nutrição.
Essa leitura é decisiva porque muda o foco das políticas públicas. Se a fome é tratada apenas como emergência humanitária, a resposta tende a ser episódica. Se ela é tratada como falha estrutural do sistema econômico e institucional, a resposta precisa envolver crescimento inclusivo, produtividade agrícola, serviços públicos, estabilidade de preços, transporte, armazenagem, crédito e integração territorial. A ONU e a FAO vêm insistindo que o enfrentamento da insegurança alimentar exige estratégias multissetoriais, inclusivas e orientadas por evidências, com atenção às desigualdades e à resiliência dos meios de vida.
Portanto, a erradicação da fome não pode depender apenas de assistência continuada ao consumo. Ela requer transformação das condições que permitem às famílias ter acesso regular, previsível e digno aos alimentos.
2.2 A base do combate à fome é renda do trabalho e capacidade produtiva
Sem renda, não há segurança alimentar estável. Por isso, políticas públicas eficazes contra a fome precisam priorizar geração de trabalho, aumento de produtividade e fortalecimento da renda das famílias. Essa abordagem é especialmente importante em países de baixa e média renda, onde grande parte da população depende direta ou indiretamente do setor agrícola e de cadeias agroalimentares. O Banco Mundial afirma que, em 2025, uma de suas prioridades centrais para agricultura e alimentos foi ampliar o financiamento agrícola e de agronegócios, conectar produtores não bancarizados a cadeias de valor e criar empregos em mercados emergentes.
Isso significa que acabar com a fome exige construir economias nas quais as pessoas possam produzir ou adquirir alimentos com sua própria renda, e não permanecer indefinidamente dependentes de ajuda. Nessa perspectiva, políticas de qualificação profissional, crédito produtivo, mecanização apropriada, extensão rural, apoio à agroindustrialização local e estímulo a pequenas e médias empresas alimentares tornam-se centrais. O relatório Food Systems 2030 do Banco Mundial também sustenta que a transformação dos sistemas alimentares precisa enfrentar os custos ocultos econômicos, ambientais e de saúde do sistema atual, ajudando países a alinhar segurança alimentar com crescimento e sustentabilidade.
Em outras palavras, a política pública anti-fome precisa ser também política de desenvolvimento econômico inclusivo.
2.3 Fortalecer pequenos produtores é mais eficiente do que ampliar dependência
Um dos caminhos mais sólidos para reduzir a fome é fortalecer os pequenos produtores rurais e conectá-los a mercados, tecnologia, infraestrutura e financiamento. A ONU destaca que o avanço do ODS 2 exige apoiar pequenos produtores e ampliar seu acesso a serviços e dietas nutritivas. O CFS e a FAO também incluem, entre suas recomendações e marcos normativos, a conexão de pequenos agricultores a mercados como componente importante da segurança alimentar.
O Banco Mundial, em estudo sobre alianças produtivas na América Latina e África, informa que tem apoiado governos com investimentos em capacitação de organizações de produtores, financiamento de ativos produtivos, adoção de tecnologia e competitividade para acesso a mercados domésticos e de exportação. Esse tipo de política é particularmente relevante porque transforma o agricultor familiar de beneficiário passivo em agente econômico ativo.
Ao invés de simplesmente distribuir alimento, políticas desse tipo ampliam a oferta, geram renda local, fixam famílias no território com dignidade, reduzem dependência externa e fortalecem a resiliência das comunidades. Essa lógica é mais compatível com um combate estrutural à fome do que modelos baseados apenas em transferência contínua sem emancipação produtiva.
2.4 Infraestrutura, logística e armazenagem são políticas anti-fome
Muitas vezes, o debate sobre fome ignora que estradas, armazéns, irrigação, energia, conectividade e transporte são políticas alimentares. Sem logística adequada, alimentos se perdem, chegam caros, tornam-se escassos em regiões periféricas e desorganizam preços locais. A ONU afirma que atingir o Fome Zero exige investimentos em infraestrutura, tecnologia e sistemas sustentáveis de produção.
Esse ponto é crucial especialmente para países com grandes extensões territoriais, sazonalidade climática ou baixa integração de mercados internos. A fome muitas vezes persiste não por ausência total de produção, mas por incapacidade de deslocar, armazenar e distribuir alimentos com eficiência. Nesse sentido, políticas de silos, estradas vicinais, centrais de abastecimento, energia rural, cadeias frias e digitalização de mercados têm papel direto no combate à insegurança alimentar.
Além disso, a redução de perdas pós-colheita produz impacto relevante sobre a disponibilidade real de alimentos. Portanto, políticas públicas de logística e armazenagem não são auxiliares do combate à fome; são parte de seu núcleo estrutural.
2.5 Repensar subsídios e incentivos agrícolas é essencial
Outro elemento importante é o redesenho do gasto público agrícola. O Banco Mundial afirma que o mundo direciona cerca de US$ 650 bilhões por ano em apoio público aos sistemas agroalimentares e que parte relevante desses recursos é distorciva, com baixa eficiência e efeitos negativos sobre mercados, produção e meio ambiente. Também destaca que mais de 40 governos passaram a trabalhar com “policy repurposing”, isto é, reorientação de políticas para fins mais benéficos, inclusive na segurança alimentar.
Essa discussão é decisiva porque muitos países gastam muito, mas gastam mal. Subsídios mal desenhados podem favorecer culturas pouco nutritivas, grupos já consolidados economicamente ou modelos produtivos insustentáveis, sem reduzir de fato a fome. Uma política pública séria precisa redirecionar incentivos para produtividade sustentável, alimentos nutritivos, conservação de solo e água, inovação agrícola e inclusão de produtores vulneráveis. O compêndio do Banco Mundial sobre reorientação de apoio agrícola em 2025 aponta justamente a necessidade de redirecionar investimentos e práticas para resultados mais sustentáveis e eficazes.
Logo, acabar com a fome exige menos improviso fiscal e mais inteligência na alocação do gasto público.
2.6 Nutrição, educação alimentar e compras públicas inteligentes
Acabar com a fome não significa apenas ampliar calorias disponíveis. Significa garantir acesso regular a dietas seguras e nutritivas. A ONU e a FAO ressaltam que a agenda do Fome Zero envolve não apenas segurança alimentar, mas também o fim de todas as formas de má nutrição.
Nesse ponto, políticas públicas inteligentes podem articular produção e consumo sem cair no assistencialismo passivo. Programas de alimentação escolar com compras locais, por exemplo, podem gerar demanda estável para pequenos produtores e, ao mesmo tempo, melhorar a nutrição infantil. IFPRI destacou em 2025 que mais de 40 governos se comprometeram a expandir programas nacionais de refeições escolares para melhorar saúde e nutrição das crianças.
Essa é uma política estrutural porque organiza mercado, melhora capital humano e reduz vulnerabilidade alimentar na infância. O mesmo vale para educação alimentar, rotulagem clara, incentivos à diversificação produtiva e integração entre agricultura, saúde e educação. O combate à fome sustentável precisa produzir não só saciedade imediata, mas nutrição duradoura e capacidade humana ampliada.
2.7 O papel do assistencialismo: apoio emergencial, não eixo permanente
É importante fazer uma distinção conceitual. Rejeitar o assistencialismo como eixo central não significa negar toda política de proteção social. Em situações de guerra, desastres, deslocamentos forçados, colapso de renda ou extrema pobreza, ações emergenciais são indispensáveis. O próprio relatório da ONU de 2025 coloca “jobs and social protection” entre as áreas críticas de transição para acelerar os ODS.
O ponto é que proteção social eficaz deve funcionar como ponte para estabilidade e inclusão produtiva, não como substituto permanente da construção de capacidade econômica. IFPRI já defendia a integração entre proteção social e crescimento para reduzir fome, e os marcos recentes da ONU, da FAO e do Banco Mundial reforçam a importância de políticas coordenadas, e não isoladas.
Assim, o melhor desenho de política pública é aquele em que o apoio emergencial salva vidas no curto prazo, enquanto políticas produtivas, de mercado, infraestrutura e governança eliminam progressivamente a necessidade desse apoio como solução dominante.
3 Conclusão
Acabar com a fome mundial por meio de políticas públicas, sem depender do assistencialismo como eixo central, exige reconhecer que a fome é um problema estrutural de produção, renda, acesso, preços, logística e governança. A evidência recente de organismos internacionais mostra que o mundo continua fora da trajetória do Fome Zero e que a resposta precisa ser multissetorial, baseada em fortalecimento de sistemas alimentares, apoio a pequenos produtores, serviços, infraestrutura e enfrentamento dos fatores estruturais da insegurança alimentar.
Ao longo deste artigo, observou-se que políticas públicas eficazes devem priorizar geração de renda do trabalho, produtividade agrícola, integração a mercados, armazenagem, logística, reorientação de subsídios e nutrição de qualidade. Também se verificou que compras públicas inteligentes, apoio a produtores familiares, tecnologia e investimentos em sistemas alimentares podem produzir efeitos mais duradouros do que modelos centrados apenas em distribuição contínua de benefícios.
Conclui-se, portanto, que o fim da fome mundial depende de uma mudança de paradigma: sair de uma lógica predominantemente compensatória e migrar para uma lógica de emancipação econômica e segurança alimentar sustentável. Onde há produção eficiente, renda digna, mercados acessíveis, infraestrutura funcional e governança pública séria, a fome deixa de ser destino e passa a ser problema superável.
Referências
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