RESUMO
A fidelidade representa um dos principais fundamentos das relações afetivas humanas, tradicionalmente associada ao modelo monogâmico, no qual está vinculada à exclusividade emocional e sexual entre parceiros. Entretanto, as transformações socioculturais contemporâneas ampliaram a discussão sobre novas formas de relacionamento, incluindo modelos não monogâmicos consensuais. O presente artigo tem como objetivo analisar o conceito de fidelidade sob a perspectiva psicológica, investigando sua manifestação em diferentes estruturas relacionais. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica de caráter qualitativo, baseada em autores clássicos e contemporâneos da psicologia e sociologia das relações afetivas. Os resultados indicam que a fidelidade deve ser compreendida como um constructo multidimensional relacionado à confiança, à responsabilidade emocional e ao cumprimento de acordos relacionais, independentemente do modelo afetivo adotado. Conclui-se que a qualidade dos relacionamentos depende fundamentalmente da comunicação, maturidade emocional e respeito mútuo entre os parceiros.
INTRODUÇÃO
Os relacionamentos afetivos constituem elementos fundamentais para o desenvolvimento psicológico e social do indivíduo. Ao longo da história, a monogamia consolidou-se como o modelo predominante nas sociedades ocidentais, sendo frequentemente associada à estabilidade familiar e à organização social.
Segundo Giddens (1993), a modernidade promoveu transformações significativas nas relações afetivas, deslocando o foco dos vínculos tradicionais para relacionamentos baseados na intimidade emocional e na autonomia individual. Paralelamente, Bauman (2004) destaca que os relacionamentos contemporâneos tornaram-se mais fluidos, influenciados pela valorização da liberdade pessoal e pela fragilidade dos laços sociais.
Nesse cenário, surgem novas formas de organização relacional, como a não monogamia consensual, que propõe múltiplos vínculos afetivos estabelecidos com conhecimento e consentimento dos envolvidos. Tais transformações ampliam o debate sobre o significado da fidelidade, tradicionalmente associada à exclusividade, mas que passa a ser reinterpretada sob novas perspectivas éticas e psicológicas.
Diante desse contexto, o presente estudo busca analisar o conceito de fidelidade nos relacionamentos contemporâneos, investigando suas manifestações no modelo monogâmico e nos relacionamentos não monogâmicos consensuais.
REFERENCIAL TEÓRICO
Fidelidade e Psicologia do Apego
A fidelidade pode ser compreendida, sob a perspectiva psicológica, como um fenômeno relacionado à formação de vínculos emocionais. A Teoria do Apego, desenvolvida por Bowlby (1984), demonstra que as experiências afetivas iniciais influenciam diretamente a forma como os indivíduos estabelecem relacionamentos na vida adulta.
De acordo com o autor, indivíduos com apego seguro apresentam maior capacidade de confiança e estabilidade emocional, fatores que favorecem a manutenção de relacionamentos duradouros. Já indivíduos com estilos de apego ansioso ou evitativo podem apresentar maior vulnerabilidade a conflitos relacionais e dificuldades no estabelecimento de compromissos afetivos.
Além disso, estudos posteriores indicam que a segurança emocional está diretamente relacionada à percepção de fidelidade e lealdade entre parceiros, sendo considerada elemento essencial para a satisfação relacional (HAZAN; SHAVER, 1987).
A Fidelidade no Modelo Monogâmico
O modelo monogâmico caracteriza-se pela exclusividade emocional e sexual entre dois parceiros. Esse formato tem sido historicamente associado à estabilidade familiar e à organização social.
Segundo Sternberg (1986), o amor pode ser compreendido a partir de três dimensões fundamentais: intimidade, paixão e compromisso. A fidelidade está diretamente relacionada ao compromisso, representando a decisão consciente de manter o vínculo afetivo ao longo do tempo.
Pesquisas indicam que a quebra da fidelidade em relacionamentos monogâmicos pode provocar impactos psicológicos significativos, incluindo sentimentos de rejeição, insegurança emocional e diminuição da autoestima (GLASS; WRIGHT, 1992).
Transformações Contemporâneas dos Relacionamentos
Bauman (2004) argumenta que as relações afetivas contemporâneas são marcadas pela liquidez dos vínculos sociais, caracterizada pela instabilidade e pela busca constante por satisfação emocional imediata.
Nesse contexto, observa-se o surgimento de novas formas de relacionamento, influenciadas por mudanças nos papéis sociais, na autonomia individual e na diversidade das expressões afetivas.
Giddens (1993) descreve o conceito de “relacionamento puro”, baseado na satisfação emocional e na negociação contínua entre os parceiros, independentemente de normas sociais tradicionais.
Não Monogamia Consensual e Fidelidade Relacional
A não monogamia consensual refere-se a estruturas relacionais nas quais múltiplos vínculos afetivos ou sexuais são estabelecidos com conhecimento e consentimento dos envolvidos.
Segundo Conley et al. (2017), indivíduos em relacionamentos não monogâmicos consensuais podem apresentar níveis semelhantes de satisfação relacional quando comparados a indivíduos em relacionamentos monogâmicos, desde que haja comunicação clara e respeito aos acordos estabelecidos.
Perel (2017) destaca que, na contemporaneidade, a fidelidade deve ser compreendida como compromisso com a honestidade emocional, e não apenas como exclusividade sexual.
METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa de natureza exploratória e descritiva, realizada por meio de revisão bibliográfica integrativa.
Foram analisadas obras clássicas e artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais nas áreas de psicologia e sociologia dos relacionamentos. As fontes de dados incluíram bases acadêmicas como Scielo, PubMed e Google Scholar.
Os critérios de seleção contemplaram publicações que abordassem temas relacionados à fidelidade, apego emocional, satisfação relacional e modelos contemporâneos de relacionamento.
A análise dos dados foi realizada por meio da técnica de análise temática, permitindo a identificação de padrões conceituais e psicológicos relacionados ao fenômeno estudado.
DISCUSSÃO
Os resultados indicam que a fidelidade deve ser compreendida como um constructo multidimensional, influenciado por fatores emocionais, sociais e culturais.
No modelo monogâmico, a fidelidade está tradicionalmente associada à exclusividade emocional e sexual, promovendo segurança afetiva e estabilidade relacional. Entretanto, estudos contemporâneos demonstram que a qualidade dos relacionamentos depende mais da comunicação e da maturidade emocional do que da estrutura relacional propriamente dita.
Nos relacionamentos não monogâmicos consensuais, a fidelidade assume novo significado, sendo definida pelo cumprimento dos acordos estabelecidos entre os parceiros. Esse modelo exige maior habilidade comunicativa, negociação constante e elevada responsabilidade emocional.
Além disso, pesquisas indicam que o ciúme, frequentemente associado à infidelidade, pode ser gerenciado por meio do fortalecimento da autoestima e da transparência emocional (RODRIGUES et al., 2019).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A fidelidade permanece como valor fundamental nas relações humanas, porém seu significado tem sido ressignificado diante das transformações sociais contemporâneas.
Embora tradicionalmente associada à exclusividade, a fidelidade pode ser compreendida como compromisso ético baseado na honestidade, responsabilidade emocional e respeito aos acordos relacionais.
Os resultados deste estudo indicam que tanto relacionamentos monogâmicos quanto não monogâmicos consensuais podem ser emocionalmente saudáveis, desde que fundamentados na comunicação, confiança e maturidade psicológica.
REFERÊNCIAS
- BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
- BOWLBY, John. Apego e perda. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
- CONLEY, Terri D. et al. The fewer the merrier?: Assessing stigma surrounding consensually non-monogamous romantic relationships. Journal of Social and Personal Relationships, 2017.
- GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade. São Paulo: UNESP, 1993.
- GLASS, Shirley; WRIGHT, Thomas. Justifications for extramarital relationships. Journal of Sex Research, 1992.
- HAZAN, Cindy; SHAVER, Phillip. Romantic love conceptualized as an attachment process. Journal of Personality and Social Psychology, 1987.
- PEREL, Esther. Casos e casais: repensando a infidelidade. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017.
- RODRIGUES, David et al. Jealousy and relationship satisfaction in consensual non-monogamy. Journal of Social Psychology, 2019.
- STERNBERG, Robert. A triangular theory of love. Psychological Review, 1986.
